Natureza Domesticada (PT)

Na cidade, a natureza, manifesta-se em parques, jardins, caixas de cimento com plantas, árvores que nascem de orifícios nos passeios, relvados e recriações de jar-dins dentro de edifícios públicos. Em casa, a “natureza” aparece em pequenas miniaturas de vasos com plantas, plantas nos parapeitos das janelas e jarras com flores. Porque é que se constroem estes pedaços de natureza? Será que funcionam como elementos decorativos da cidade? Ou funcionam como pequenos oásis na paisagem urbana?

Encontramos as primeiras referências a jardins construídos no mito dos “Jardins Suspensos da Babilónia”, uma das sete maravilhas do mundo antigo. O Rei da Babilónia, para satisfazer a sua saudosa esposa, resolveu construir uma “recriação da sua terra natal”. Construiu uma montanha artificial com jardins no topo e colinas fabricadas que cobriu com várias espécies de árvores: um paraíso fabricado pela mão do homem.
Hoje em dia, continuamos a associar jardins com paraíso e a ideia de recuperação de um ideal perdido. Nos parques da cidade, jardins, e plantas de casa, os elementos naturais são manipulados de tal maneira que o produto final é uma “natureza artificial”. Estes “objectos” artificiais feitos de “objectos” naturais, têm o objectivo de representar situações da natureza, funcionam como exibição e criam um espaço para apreciação em público ou e em privado.
A experiência do jardim contemporâneo privilegia o aspecto visual. Os jardins na cidade são projectados como paisagens, seguem modelos de representação pictórica da pintura paisagista. São criados para gerar pontos de vista, oferecem panoramas, imitando “cenas” do natural para contemplação à distancia. Na maior parte destes locais, o público nem pode tocar ou pisar em nada, sendo reprimida qualquer tentativa de interacção física, com medo de que a falta de cuidado estrague o jardim. Quando não são impostas restrições, muitas vezes nós próprios limitamos o nosso contacto com a natureza: Quantas vezes passeamos de carro por paisagens maravilhosas e nem sequer saímos para o ar livre? A necessidade de contacto com a natureza é somente visual?
No passado, o Homem tinha que se proteger das ameaças do meio selvagem. Hoje, as nossas paisagens construídas têm de ser tratadas e protegidas das agressões do meio urbano. A sociedade tem vindo a criar inúmeras regras para proteger a natureza. Para fechar este círculo, a natureza na cidade ajuda-nos a tranquilizar o stress e ansiedade da vida moderna. A presença da natureza, ainda que artificial, lembra-nos a nosso primeiro habitat. A sua função no meio urbano alivia a sensação de deslocamento através da simulação de um paraíso perdido.
Este projecto explora a relação das pessoas que vivem em meios urbanos com a natureza. A natureza na cidade torna-se um bem de consumo. A “natureza” que aprecia-mos está demasiado distante da experiência da natureza original, selvagem, perdida. As peças “natureza artificial/mobília”, nesta instalação, são fantasias que investigam a relação entre os nossos impulsos consumistas, a necessidade de conforto físico e a necessidade de estar perto da natureza.

Catarina Leitão, 2002
Publicado no catálogo “Natureza Domesticada (Tamed Nature)”, CAM-Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, July 2002.