Paisagem Instável

por José Roseira

Paisagem Instável é o título da nova exposição de Catarina Leitão na galeria Carlos Carvalho. Recorrendo aos meios do desenho, da pintura, da escultura e da instalação, a artista dá a ver a continuação da sua pesquisa formal, focada na análise das relações entre forma e volume, entre o desenho e a escultura, entre o plano, o vazio e o sólido. Adicionando um novo tema ao seu vocabulário singular, Leitão recruta a geologia para a sua lista de ciências ficcionadas. Os biomorfismos e as hibridizações que em trabalhos interiores surgiam isolados sobre um fundo ou em conjuntos que se relacionavam exclusivamente entre si aparecem agora inclusos ou sedimentados numa paisagem inquieta. Uma novidade no trabalho da artista, que sempre foi pautado pela repetição de elementos que se fechavam e abriam e povoado por caixas e cápsulas multiformes, estas obras abrem-se no arrojo da construção de um horizonte.

Dos três momentos da instalação — um inicial, de repouso e portabilidade (fechado, bidimensional), o acto performativo (abrir, instalar), e o corpo expandido (aberto, tridimensional) — que têm vindo a servir de guião a muitas das suas peças mais recentes, Leitão parece prescindir do primeiro para dar inteira liberdade às suas criações para se constituírem como verdadeiras paisagens, ambientes capazes de escapar ao limite membranoso do plano e ocupar o espaço da sala.

As cenas abertas e luminosas da série Apontamentos definem e abrem um cenário rico em detalhes e contradições, enquanto as esculturas de Paisagem Instável abandonam o plano para tactear cautelosamente o vazio do espaço no qual se insinuam. Lado a lado, estas peças estão vinculadas às direcções que cada uma propõe; as da primeira série apontando para fora e as da segunda para dentro. Centrífugas e centrípetas, estas obras definem duas linhas em tensão — horizonte e perímetro — que transformam a sala branca num corpo cruzado por forças dinâmicas que são activadas pelo olhar do espectador.

Entre a acreção e a depuração, adicionando sempre novos elementos lexicais e formais ao seu trabalho minudente do desenho e da instalação, em Paisagem Instável a artista parece afastar-se da particularização que quase sempre pontua o seu trabalho — a atenção focada sobre o objecto e os seus detalhes — para abrir o campo de visão e oferecer um ponto de vista pan-óptico sobre o seu universo. Sendo possível encontrar em cada uma destas obras uma filiação nas séries anteriores de Catarina Leitão, cujo corpo de trabalho tece uma linha ininterrupta e em constante renovação desde os anos noventa, esta exposição resolve claramente as preocupações formais que a artista tem vindo a dedicar à questão do desenho expandido, por exemplo nos seus trabalhos Dendrograma (2016) e Caixa de Desenho (2017).

Abrindo também novas perspectivas, esta exposição é mais um capítulo de uma pesquisa focada na relação entre o humano e o não-humano, entre o natural e o artificial. Se em trabalhos anteriores eram patentes as preocupações com o abrigo, a militarização do espaço urbano (Leitão viveu em Nova Iorque entre 1994 e 2009) e a domesticação da natureza, nestas novas séries é possível identificar outras inquietações prementes, como as que são denunciadas pelo título da série Monocultura, que habita a sala contígua ao espaço principal da galeria. Formalmente semelhantes às paisagens de Apontamentos, estes trabalhos tingem esta exposição com um aviso. Adjacentes, mas arredados do espaço lúcido definido pelos outros trabalhos, os desenhos de Monocultura prefiguram uma instabilidade; juntas, estas séries traduzem a tensão inilidível que hoje se joga entre o humano e o planeta, entre nós e a nossa própria natureza. Todas as paisagens são instáveis, mas se até agora éramos protegidos pela dilação do tempo geológico, é preciso lembrar que no último século firmamos raízes em paisagens definidas pelo tempo humano.

 

José Roseira, Novembro de 2017

Solo Exhibition: Paisagem Instável

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Paisagem Instável / Unstable Landscape
Opening November 25th, 5-8pm at Carlos Carvalho Arte Contemporânea

Facebook Event: https://www.facebook.com/events/295777000913458

Inauguração 25 de Novembro 17h-20h
De 25 de Novembro a 13 de Janeiro 2018

Carlos Carvalho Arte Contemporânea
Rua Joly Braga Santos, Lote F R/C
1600 – 123 Lisboa Portugal
Tel.+(351) 217 261 831 | Fax+(351) 217 210 874
carloscarvalho-ac@carloscarvalho-ac.com
www.carloscarvalho-ac.com

Solo Exhibition: Biblioteca Natural. A Ilha.

Biblioteca Natural. A Ilha. / Natural Library. The Island.
Sede da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitetos, Funchal
09.11.2017 – 30.11.2017

Work developed in the Artist in residence at Madeira Natural Park / III INSULA International Colloquium. Beyond Nature/Artifice with the support ofSecretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais| Instituto das Florestas e Conservação da Natureza. September 2017.

Exposição resultante de uma residência artística desenvolvida no Parque Natural da Madeira em setembro de 2017, promovida pelo UMa Cierl em parceria com a Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais| Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, no âmbito da organização do III INSULA International Colloquium | Beyond Nature & Artifice

LivrObjecto – Anatomia e Arquitectura

3 Outubro, Terça-feira  17h00–19h00

Mostra de Livros de Artista no Átrio da Biblioteca de Arte – Museu Gulbenkian

Selecção de Livros de Artista da Colecção da BA

LA 58, Autor desconhecido; LA 83, Isabel Baraona; LA 232, Rafael Faria; LA 304,Sara&André; LA 326, David Gonçalves; LA 339, Eduarda Rosa; LA 352, Hélder Gorjão; LA 401, Carla Rebelo; LA 406, Bela Silva e LA 410, Catarina Leitão

e

Conversa com livros dentro, à volta do tema: “Leituras do LivrObjecto
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Statement 2016 (EN)

In my artwork I investigate the spatial possibilities of drawing. I render relationships between two-dimensional and three-dimensional space, with a special focus on structures and objects that collapse/expand, fold/unfold, and that are portable when closed. Intertwined with this research, I reflect on our relationship with nature and what we define as such, in an increasingly manipulated and constructed environment, conditioned by culture.

I build portable and nomadic structures that can acquire several configurations and adapt to different spaces and places. Working in a variety of formats such as large size installations, works on paper, books or fabric works, I incorporate into the work’s narrative the potential of each piece to be manipulated and transformed.

Catarina Leitão, 2016

Artist in Residency: Madeira Island/ UMa-Cierl

Artist in residence at Madeira Natural Park / III INSULA International Colloquium. Beyond Nature/Artifice with the support of  Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais.
September 2017,

Residência Artística no Parque Natural da Madeira, integrada na programação do III Colóquio Internacional INSULA: Para Além de Natureza/Artifício. Residência promovida com o apoio da Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais. Setembro 2017

http://www4.uma.pt/cierl/?page_id=1909

http://www4.uma.pt/cierl/?page_id=2340